Água Viva

Este é um blog sobre processos, testes e falhas – entidade elástica, matéria viva.

Vertigem

Quando pensamos em vertigem, o mais lógico é imaginar estar perto de um precipício, ou lugares muito altos, quando vemos a altura vem logo aquela tontura esquisita, uma sensação meio de desmaio. Engraçado que nem todas as pessoas sentem vertigem em relação a altura. E eu acho realmente engraçado quando uma característica tão forte como essa vem instalada em alguns seres humanos e não vem em outros. Provavelmente tem alguma justificativa orgânica para tal, mas talvez não também já que ainda não se sabe a causa nem o tratamento da endometriose.

Eu não tinha vertigem, quando aos 15 anos decidi ir na Cachoeira da fumaça e subir naquela pedra que todo mundo que não tem medo de altura sobe para tirar foto. Nem quando aos 20 e poucos subi no terraço do prédio da minha amiga pra encontrar outros amigos que acharam que ir lá fumar era uma boa ideia. Mas hoje em dia, com mais de 30, eu tenho medo da vertigem, evito subir em lugares altos com medo de sentir medo. Medo da tontura que eu consigo imaginar só em fechar os olhos, ou será que é de estar bêbada?

Na verdade, eu parei de beber tem dois anos, uma das alegrias é não sentir mais aquela vertigem alcoólica ao deitar, ver o mundo girar de olhos fechados, a sensação de que desmaiar não vai ser possível.

Nos últimos meses eu percebi uma nova vertigem no meu organismo, ao olhar para edificações muito altas, uma sensação de integração com o prédio, porque tem isso, a vertigem faz com que tudo se transforme em uma coisa só. Eu chão, eu prédio, eu céu, tudo girando na sintonia da minha percepção. Mas como é possível ter vertigem invertida? Estar no chão e ficar tonta ao olhar pra cima.

Ontem eu comecei a pensar em outra vertigem, uma vertigem que eu não tinha ainda denominado como tal, a vertigem artística. É uma sensação muito engraçada de estar perto de uma obra de arte, passar perto dela e aí vem aquele pensamento intrusivo: e se eu cair sem querer em cima dessa peça? Imagina que vexame! E se… eu desmaiar? E cair em cima dessa obra de arte de valor inestimável? Chamei de vertigem porque são pensamentos muito similares e catastróficos, estão no mesmo lugar de: e se eu cair desse precipício? E se eu pular sem querer? Na verdade, acho que a vontade de pular de lugares altos estando na beira é um sentimento diferente e talvez até oposto ao da vertigem. Essa ideia de que o abismo te chama é muito assustadora, apesar de poética, um diálogo com a morte.

No caso da vertigem artística não é tão trágico, talvez.

Ontem, fui a inauguração da exposição de uma grande artista ítalo-brasileira a Anna Maria Maiolino, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia em Lisboa e ela fez uma perfomance chamada Entre vidas, onde ela e algumas pessoas passeiam entre ovos de galinha sem pisar em cima deles, só de imaginar a sensação de passear por cima dos ovos, sem poder pisar neles eu pensei: E SE alguém pisar? Claro que quando abriram o espaço para o público alguém pisou e tiveram que encerrar para não estragarem mais ovos que, diga-se de passagem, ela utiliza para fazer outros trabalhos posteriormente, lindo e constante inicio, meio e fim para um ovo. Inveja de ser ovo.

Apesar de ter achado a performance linda e ter me encantado com a oportunidade de ver essa grande artista de perto, eu gostaria de voltar a sensação de vertigem que eu senti ao ter que esquivar, não dos ovos, mas das peças em barro fresco que estavam na sala oval do MAAT. Foi aí que eu senti, E SE… eu cair em cima desse monte multicolor em barro na inauguração da exposição?

Roubei no jogo e fui procurar o significado de vertigem, assim, ao pé da letra. E o site de buscas tem um talento divino em estragar qualquer reflexão poética. “A vertigem é uma 
falsa sensação de movimento, geralmente rotatória (o ambiente parece girar), frequentemente causada por distúrbios no ouvido interno (sistema vestibular). Pode provocar náuseas, vómitos, desequilíbrio e ser incapacitante. As causas comuns incluem VPPB (doença dos cristais), neurite vestibular e doença de Ménière.”

Começo com uma reflexão e saio com um diagnóstico.

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